Quem se beneficia com o desligamento da TV analógica?

12/02/2017, faltam 45 dias para o “desligamento” da TV analógica. Neste post, vamos tentar jogar luz sobre alguns questionamentos dessa questão.

Para começar, colocamos o termo “desligamento” entre aspas pois não ocorrerá um desligamento como a Anatel e o palácio do planalto erroneamente estão tentando nos fazer crer, pois isso é impossível. Não se desliga uma frequência.
Cores também são frequências, há como deligar a frequência correspondente ao vermelho escuro por exemplo e, obrigar a todos usarem bordô? Não né baby, o máximo que pode ocorrer é um acordo com os fabricantes de tinta para, a partir de determinada data, pararem de fabricar tinta vermelho escuro. É mais ou menos isso o que ocorre com a TV analógica: há um acordo que em determinada data, todos os transmissores dessas televisões irão parar de transmitir. As emissoras poderiam perfeitamente continuar transmitindo ambos os sinais, analógico e digital, mas há diversos grupos de interesse que impedem que isso ocorra.

Para identificarmos quais são esses grupos de interesses envolvidos, vamos explicar a diferença entre TV analógica e digital. Ambos dependem de um transmissor de ondas eletromagnéticas extremamente potente. Na transmissão analógica, o conteúdo gerado pela emissora chega a esse transmissor – que converte tudo em um sinal de radiofrequência, o qual qualquer aparelho receptor de rádio (sim, TV Analógica é onda de rádio) pode entender.
Aliás, não há muito o que entender, é meio tosco até: se o receptor estiver na área de cobertura do transmissor e sintonizar tal frequência, irá captar tudo o que estiver ali. É o princípio básico da radiofrequência: as redes de TV analógicas são como estações de rádio, o princípio tecnológico envolvido é o mesmo, diferente do formato digital.

No formato digital, o conteúdo gerado pela emissora chega a um transmissor que converte tudo em dados, como na internet, CD, DVD, etc. O que é transmitido agora são códigos digitais e o receptor tem que ler e processar esses códigos após recebê-los. Porém, ao invés de cabos como na internet ou TV fechada, utiliza-se radiofrequência, o mesmo princípio do roteador wireless que temos em casa. Então, concluímos que o espectro de radiofrequência inteiro pode transmitir tanto sinais analógicos quanto digitais certo?
E o que mais usa sinais digitais transmitindo em radiofrequência? Tem de tudo: satélites, telefonia móvel, ERBs, TVs por assinatura e agora, TV aberta. Há faixas de frequência do espectro que são melhores para a transmissão de dados, mas basicamente MHz (que inclui FM, TV analógica, UHF analógico), KHz (rádios AM), GHz (UHF analógico), são as mais usadas.

Então, temos 4 grupos que utilizam radiofrequência e compõe os grupos de interesse: empresas de telefonia móvel, TV aberta, TV por assinatura, FM e AM. O AM passa por uma crise sem precedentes, está na UTI e, literalmente esperando desligar os aparelhos. Como os smartphones e aparelhos de som mais modernos não recebem essa faixa de frequência, somado à qualidade de som ruim, ao conteúdo datado e repetitivo e, principalmente, o avanço de rádios online e serviços de streaming, simplesmente não há ouvintes. Há casos de emissoras com cerca de 100 ouvintes por hora (menos que a Sens por exemplo…hehehehehe).

Essas emissoras AM geralmente pertencem aos mesmos oligarcas do FM, como pode ser exemplificado neste texto. Então, a solução encontrada para não perderem a boquinha, ao mesmo tempo que geram lucros, foi fazer um lobby gigantesco em cima da Anatel para transmitir em FM, melhorando a qualidade de som. A gestão Dilma já autorizou essa mudança assim, na canetada, sem novas concessões, novas outorgas, concorrência pública.
Mas a coisa fica pior: Nos grandes centros urbanos, como na Grande São Paulo, onde não há mais espaço para essas emissoras AM no dial FM, a ideia foi ampliar a faixa de frequência do FM comercial. A escolhida é justamente, a faixa de frequência hoje utilizada pela TV aberta até o “canal 6”: de 76 MHz a 87 MHz. com isso, elas se juntam à atual FM comercial, de 87,7 MHZ a 108 MHz. Entenderam o motivo da presa em “desligar” a TV analógica?

Mas ok, os oligarcas das outorgas pressionaram o governo que cedeu, mas e o fato de que os aparelhos receptores, não abrangem essa faixa do espectro, mesmo sendo FM? A solução para isso foi outra canetada: criar uma lei para obrigar os fabricantes que vendem no país, fazerem aparelhos de rádio compatíveis. Quanto tempo pode levar isso?

Obs: Para emissoras como a Sens, totalmente independentes, transmitindo pela web, quanto mais demorar melhor. O Brasil já perdeu o timing do rádio digital para a internet, essa nova faixa de FM periga ter o mesmo fim e acabar antes de começar.

Para ouvir rádios em aparelhos celulares é outra treta: dá pra fazer um “hack” no software de captação de FM (mais fácil para quem não ouve AM, pois geralmente essa população sequer tem acesso à internet móvel). Faltou então combinar com fabricantes, desenvolvedores, população mais humilde… Mas que diferença isso faz né? Da maneira como tudo está sendo feito, no remendo, na gambiarra, nada parece importar.

Gambiarra também é a recepção da TV digital como está sendo feita no Brasil. Parece que nossos governantes se esquecem que há muita gente humilde no Brasil, que depende do velho aparelho de TV de tubo e, reza para ele não queimar pois sabe que terá dificuldades para comprar outro. Um bom aparelho de TV de LED ou LCD (ainda fabricam telas de plasma ou já desistiram?), prontos para recepção das TVs tanto digitais quanto analógicas, custa mais de R$ 1000,00. Um bom kit com conversor + antena e cabos, não sai por menos de R$ 250,00 e depende de uma TV que mesmo de tubo, tenha entrada do tipo RCA. Pois eu conheço famílias até mesmo em centros urbanos, que têm TVs de tubo sem entrada RCA, só antena telescópica, portanto incompatíveis com os receptores.

O fato de ter o receptor é uma gambiarra por si só. A mudança para TV digital em outros países, conta com uma fatia infinitas vezes maior da população com TVs receptoras digitais. E o que o governo fez com toda (aviso de ironia) “essa gente pobre que insiste em atrapalhar os planos”?
Para os que são beneficiários de programas sociais, estão dando kits gratuitos, distribuídos por um site mega burocrático. Além disso , há famílias que ganham pouco mas não estão inscritas em programas sociais e vão ter que se apertar e gastar mais de R$ 250,00 no kit (levando em conta que a cidade tenha um centro de comércio popular como a Sta. Ifigênia em São Paulo, senão, certeza que custará mais). Mesmo para famílias inscritas em programas sociais quanto para os demais, esses aparelhos hoje em dia têm vida útil curta. Quando pifar, o governo dará outro aparelho? Outra dúvida: mesmo que a pessoa tenha aparelhos novos, dinheiro para comprar receptor, etc, os aparelhos antigos de TV ficarão completamente obsoletos, nem como reserva servirão, definitivamente virarão resíduo com um altíssimo poder de contaminação ambiental. Há alguma política de logística reversa para recolhimento desses aparelhos? Não, mas o governo fez questão de informar neste site, que a responsabilidade em destinar esses aparelhos é da população.

Já ouço aqueles mais críticos dizer que “só reclamamos, que toda mudança é ruim no começo, blá blá blá” Mas, acontece que  TV aberta é dominada pelos mesmos oligarcas que FMs e AMs, e para eles, essa será uma faixa do espectro que será desocupada, livre, já que absurdamente a população não terá acesso à utilizá-la, sendo que é dona dela.

Mas não para por aí. As operadoras de telefonia móvel se beneficiarão duplamente com o desligamento da TV analógica. Primeiro, porque poderão utilizar a faixa de frequência hoje utilizada pela TV aberta do “canal 7 a 13 VHF e os UHF (um pouco acima, antes da TV digital). Isso servirá para ampliar a rede 4G, que hoje é cara e excludente. Essa ampliação resultará em menores preços?
Outro questionamento que está meio obscuro: a frequência ocupada pelas emissoras AM, da ordem do KHz, ficará livre, isso beneficiará quem? Me parece que as próprias empresas de telefonia móvel, podem usar para voz e dados, tecnologicamente, é possível. O lobby das operadoras junto à ANATEL é tão forte, que elas vêm forçando a cobrança de franquia para internet fixa (não se engane, quando a poeira baixar novamente, com certeza haverá outra tentativa). Essas operadoras, além de tomarem à força o patrimônio público, terão acesso a mais frequências, dando assim lastro aos planos insanos de vender linhas e aparelhos de forma aloprada, mesmo que essas linhas depois sejam abandonadas pelos usuários (o que importa mesmo é mostrar “crescimento” aos acionistas, mesmo que isso signifique congestionar as faixas de espectro que operam). Resumindo: que vantagem levamos nós – enquanto usuários – com essa pressão das teles e empresas de comunicação em ocupar mais faixas de frequências?
Acredito que vantagem não levaremos nenhuma. No caso das teles, ocupar essas frequências resultará em menores valores nas contas? Já no caso da TV, melhor qualidade de som e de imagem é relativo, já que se comparado à qualidade de imagem de serviços de streaming por exemplo, em que podemos até mesmo escolher a resolução, qualidade é algo bem questionável. Se compararmos com serviços de TV a cabo, nos quais temos opção de escolher legendas, idiomas, ver programação e etc, vê-se que não haverá um grande avanço tecnológico, a programação da TV aberta continuará sendo linear, sem participação da sociedade, sem interatividade. Ou seja, haverá apenas a mudança de frequência de VHF analógico para UHF digital. Volta a pergunta: que vantagem nós levamos com todas essas mudanças?


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