20 anos de OK Computer

OK Computer 20 anos

 

20 anos. É tempo demais. Tanto tempo que se torna indispensável contextualizar.
Há 20 anos OK Computer, a obra prima do Radiohead, que marcou definitivamente a transição de uma boa banda de britpop para uma dos maiores de todos os tempos, era lançado. Pode-se dizer que o Radiohead com este álbum, saiu de apenas mais uma banda da 90s british invasion para influenciar toda a estética e cultura de uma época, passando por diversos e distintos estilos musicais, até artes plásticas.


Eu tinha 16 anos, já trabalhava havia 3 anos e começava a descobrir que a vida não era fácil, mas eu até curtia a rotina dessa época. Havia acabado de começar a trabalhar no Centro de São Paulo e era bem bacana isso. Em meu círculo, era um dos poucos que já tinha internet, baixava músicas via Napster e AudioGalaxy, descobria coisas novas e lia muito sobre música.

Teria dado tudo bem mais certo para mim se – ao mesmo tempo que esse choque de realidade batia à minha porta – minha galera à época, não tivesse cometido o “atraso de vida”  de embarcar nuns rolês nada a ver. No caso, baladas de “boy” na Vila Olimpia, tipo Krypton, Officina Paradiso, Enfarta Olímpia, Club A, Tipuana e outras aberrações que hoje sei que estavam ali apenas para gentrificar o bairro e transformar a vida de seus moradores em um inferno (talvez, para que vendessem seus imóveis À Cyrela ou Gafisa).
Tais lugares faziam eu me sentir cada vez mais deslocado, inadequado e isso atrasou muito meu lado.

Mas o bom era que com isso, eu me enterrava ainda mais em música alternativa e indie, minha válvula de escape. Eu ouvia nessas baladas (que hoje são chamadas de “top/topzera) aquelas músicas baratas, de gosto duvidoso, compradas de baciada na Europa, por selos como Paradoxx ou Building Records. Chegava em casa desesperado para baixar Beck, Ocean Colour Scene, Blur, Oasis, House Of Love, Verve, Bush e…Radiohead.

Já era fã de Radiohead desde Creep e Fake Plastic Trees, Tinha baixado-as via Napster, foi quando OK Computer surgiu. O primeiro contato que tive com ele foi numa madrugada, assistindo à extinta MTV no 32 UHF: Paranoid Android surgia. Uma animação até simples para essa que talvez seja a música mais complexa do álbum, dividida em 3 atos com mudanças abruptas, a urgência da guitarra mais potente, como em Creep, mas só que mais madura, e muita carga dramática, mas sem qualquer anseio dramático.

O segundo contato já foi um tempo depois, no rádio. Aqui vale um parênteses: as rádios paulistanas da época fugiam de OK Computer. As populares tipo Nativa e Tupi cresciam tanto, que tocar algo tão complexo e alternativo era quase uma sentença de morte comercial. Mas não teve jeito, o mundo inteiro comentava, a internet  que “ficava aberta” apenas das 12:00 às 5:00 (a 56kps) falava muito de OK, a Ilustrada falava muito de OK, não dava mais para ignorar, OK já havia se tornado virulento demais para esconder a epidemia, o mundo se rendia. Nesse contexto, tocaram “No Surprises”, talvez por ser a música de trabalho, talvez por vir a reboque de um vídeo chamativo – Thom Yorke com a cabeça enfiada num capacete de astronauta, se afogando diante dos nossos olhos enquanto cantava sobre suicídio…imagina…

Não existia Youtube mas eu já havia dado um jeito de conseguir os vídeos de Paranoid Android, No Surprises e Karma Police, até hoje um dos vídeos mais lindos dentre todos. O CD já estava com o encarte tão gasto de tanto por e tirar que dava dó. Quase furou de tanto ouvir suas faixas, e que faixas (recentemente comprei-o novamente e agora tenho 2 na CDteca).

Tecnicamente OK Computer é impecável. São 5 músicos muito bons ou excelentes e a produção de Nigel Godrich é precisa para esse cenário. Arrisca onde pode, não interfere no processo criativo, é imprescindível e discreta ao mesmo tempo. Há elementos eletrônicos inéditos até então: texturas, teclados siderais, camadas sobrepostas, tudo conciliado com estrutura básica de uma banda de rock: duas guitarras, baixo, bateria, backing vocal…está tudo ali. Verdade seja dita: os acordes são acima da média até hoje, mas 20 anos se passaram né? Dá para notar que poderia ter-se arriscado mais aqui ou ali. As letras, essas sim, traduziram não só o zeitgeist, mas são atuais até hoje, incômodas, brutais. Mas o politonalismo, a mistura densa de estilos e com tudo isso, o risco real de dar merda, só vieram com Kid A – não deu, mas poderia ter dado. Já OK Computer não tinha como dar errado, ainda que nada tivesse dados certo, não tivesse influenciado toda uma geração e, ter feito o mundo inteiro ficar boquiaberto, no mínimo seria um álbum de britpop acima da média. Mas o que faz a diferença mesmo é o Thom.

Thom Yorke aparece com vocais, falsetes, letras, alma, inconformismo, há veludo em sua voz, mas também há aspereza, há urgência, calmaria, urgência, calmaria…Tem horas que tu tem certeza que ele não irá atingir a nota, que irá desafinar (como Subterrain Homesick Alien), que irá falhar, mas no fim, dá tudo certo. Parece proposital que os vocais sejam assim: num trabalho que retrata um mundo prestes a desmoronar, uma voz prestes a desmoronar. Tu tambpem acha que ele não vai chegar até The Tourist e de uma maneira surpreendente, é a música em que (para mim), se exige mais de sua potência vocal, ainda mais que em Exit Music.
A sensação que Thom Yorke passou para todo nós aqui é clara: “poxa, eu consigo cantar junto com esse cara, aliás, eu QUERO cantar junto com esse cara”. É sem dúvida um dos grandes intérpretes da história do rock, talvez  que mais nos cause a impressão de que não está interpretando, quando na realidade está, e muito bem.

Eu fico me perguntando se Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O’Brien, Colin GreenwoodPhil Selway e Nigel Godrich, tinham noção da dimensão do que estavam fazendo quando:

  1. Colocaram Airbag a menos impactante, na abertura do álbum;
  2. Fizeram Paranoid Android em três atos surpreendentes;
  3. Decidiram fazer uma espécie de contra ponto à Subterranean Homesick Blues do Dylan;
  4. Gravaram com emoção e dedicação Exit Music (For a Film), para a trilha de um filme que já tínhamos esquecido no ano seguinte.
  5. Fez uma das músicas mais lindas da história do rock alternativo: Let Down.
  6. Fez Karma Police, que com a anterior, forma uma das sequência mais sublimes de tida a hisória da música pop.
  7. Colocou uma voz robótica, de secretária eletrônica, sombria e perturbadora, nessa espécie de vinheta no meio do bagulho;
  8. Adicionou peso e um nome incompreensível à Electioneering, que incrívelmente, mesmo aparentemente deslocada, dialoga com todo o resto;
  9. Fez Climbing Up The Walls: desesperadora, linda, urgente, linda, aterrorizante, linda, incômoda, linda.
  10. Pegou o manual de estilo do Velvet Underground para si e disse: vou fazer a minha “Sunday Morning”, mas contextualizada às perturbações  inerentes à banda;
  11. Gravou Lucky, que junto com No Surprises, deu origem a tudo
  12. Deixou para o final Thom Yorke colocando seu falsete à prova em The Tourist?

A questão que sempre me faço é se a banda sabia que tinha algo atemporal, genial e impactante nas mãos? Sabiam que o álbum iria adiantar a tal virada do milênio em 3 anos e que influenciaria TODA uma geração, mesmo que de estilos tão distintos quanto o pop amarelo do Coldplay, o trip-hop do Massive Attack, a eletrônica do Unkle, o britpop do Travis, o estrondo mundial do Muse?

Talvez, algumas dessas coisas tenham passado pelas suas mentes vez ou outra em devaneios ocasionais, talvez não. Mas o poder que esse álbum teve de mudar toda uma geração, de criar o primeiro hype-indie-alternativo da era da internet, mesmo quando ainda não era hype ser hype, de ter influenciado do cinema às artes plásticas de todo o começo do milênio, isso ninguém poderia prever. Como disse anteriormente, OK traduziu o zeitgeist, mas também foi ele próprio, o zeitgeist.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *